ALANDROAL
"O NOSSO GRANDE PROBLEMA É A FALTA DE DINHEIRO!"
POLÍTICA
[01 MAR] »»
Completados cem dias de mandato autárquico, o Brados do Alentejo
iniciou a série de entrevistas que pretende efectuar mensalmente
junto dos presidentes das autarquias da sua zona de implantação.
O primeiro entrevistado foi João Grilo, presidente da Câmara
Municipal do Alandroal, que referiu as dificuldades com que se depara
o seu município e os projectos que pretende realizar.
Eleito pelo movimento independente MUDA, o presidente salientou que
o grande problema é a "falta de dinheiro" e os vários
milhões de dívidas acumuladas que "herdou"
do anterior executivo.
Brados
do Alentejo – Ocupou o cargo de vice-presidente no anterior
mandato na Câmara Municipal de Alandroal, mas, no entanto, não
concluiu esse mandato e nas últimas eleições
autárquicas concorreu como independente contra João
Nabais, anterior presidente, e contra o seu partido [PS]. Ao que se
ficou a dever esta situação?
João Grilo – Nunca fiz carreira política,
sou professor, e quando fui convidado para desempenhar funções
de vereador nesta câmara foi no sentido de dar a minha colaboração
a um concelho que precisava dramaticamente de mudar de paradigma.
Na altura em que entrei, acreditei que o projecto que estava a ser
implementado representava essa mudança e que iria construir
um futuro sólido para o concelho. No entanto, fui progressivamente
percebendo que não era verdade e que era um projecto que vivia,
sobretudo, de aparências e que tentava dar uma ideia de desenvolvimento
à custa de um endividamento progressivo.
Foi uma aposta exclusiva em infra-estruturas e equipamentos, esquecendo-se
as pessoas, colectividades e associações, indústria
e o desenvolvimento económico. Portanto, era um desenvolvimento
aparente. Assim, e depois de perceber que se estava a comprometer
o futuro do concelho, fui-me distanciando do projecto. Estávamos
a gastar aquilo que não tínhamos!
Tentou-se dar às pessoas a ideia que num abrir e fechar de
olhos era possível mudar o concelho do Alandroal sem que se
fizesse um trabalho sério, sem investimento e sem o envolvimento
das pessoas.
B.A. – Houve alguma ruptura com o Partido Socialista
de que era militante?
J.G. – Não rompi com o partido e este também
não rompeu comigo, pelo menos que eu saiba!
Quando avançámos com o movimento independente entendi
que a minha militância não interferia com os objectivos
que temos para o concelho, mas tive conhecimento que a estrutura concelhia
tentou mover uma acção para me expulsar e aos outros
militantes que se envolveram no movimento. Esta situação
ainda não se verificou e espero que não se venha a concretizar.
No que diz respeito ao desempenho das funções não
há misturas! O desempenho de funções de autarca
não pressupõe a ligação a um partido e
estão perfeitamente balizadas as interacções.
Parece-me que a minha acção enquanto autarca não
depende do apoio do partido e nem pode ser limitada pela ausência
desse apoio.
B.A. – A contagem de votos foi um pouco atribulada e
só se confirmou a eleição no dia seguinte. O
que originou esta situação?
J.G. – Penso que foi um processo que envergonhou o
concelho e que era absolutamente evitável porque na realidade
não houve qualquer problema no encerramento das urnas. Gerou-se
uma situação que favoreceu momentaneamente quem perdeu
as eleições e que conseguiu, com a confusão gerada,
atrasar o lançamento dos resultados definitivos e criar nas
pessoas a ideia de que haveriam dúvidas em relação
ao vencedor. Portanto, o que nós sabíamos desde as oito
da noite do dia das eleições, que tínhamos vencido
por sete votos, era a realidade. Houve um tremendo esforço
de quem perdeu para criar uma enorme confusão à volta
das eleições e penso que demos uma péssima imagem
ao país.
B.A. – Como encontrou o município e qual a sua
situação financeira?
J.G. – Existem muitas dívidas ligadas, sobretudo, a fornecedores
e dívidas ligadas a obras que foram iniciadas. Estamos a falar
de muitos milhões. Está a decorrer uma auditoria efectuada
por uma entidade externa ao município que nos dará todos
os números exactos no devido tempo. O que posso afirmar é
que esta dívida é superior ao que nós esperávamos.
É o resultado de muitos anos a acumular para tentar disfarçar
dificuldades. Vivemos acima das possibilidades durante muitos anos.
Grosso modo, posso dizer que este município foi acumulando
cerca de três milhões de euros de dívidas por
ano durante oito anos. O passivo da câmara há oito anos
era muito reduzido e neste momento, por exemplo, é seguramente
superior ao do município de Beja.
O nosso grande problema é exactamente a falta de dinheiro!
Gastou-se muito mais do que aquilo que havia e não se gastou
bem. Podia-se ter usado esta verba para ajudar este concelho a dar
o salto necessário e isso não se fez e paga-se caro.
Ao mesmo tempo, os próprios serviços da câmara
não se modernizaram e a eficiência é muito baixa.
B.A. – Uma vez que se trata de um concelho do interior,
que como tanto outros, certamente, enfrenta enormes dificuldades,
como irão obter receitas para pagar esta dívida tão
avultada?
J.G. – Demos seguimento a um Plano de Saneamento Financeiro
que tinha sido iniciado pelo anterior executivo e que poderá
ser uma ajuda importante que irá resolver os problemas nos
próximos anos. No entanto, este plano será seguramente
insuficiente se não for acompanhado de um rigor muito grande
na despesa e de um aumento de receita. A despesa tem que ser reduzida
a diversos níveis porque também não havia qualquer
contabilidade de custos no anterior executivo e não se perspectivava
os gastos num sentido de poupar e tornar eficiente cada euro que se
gastava.
Por outro lado, poderá haver o aumento de algumas receitas,
nomeadamente no que diz respeito à cobrança de águas
que deverá ser mais eficiente. Se conseguirmos desenvolver
alguns projectos que temos ligados ao turismo e a outras actividades
económicas também poderemos gerar mais receita.
B.A. – Apesar da difícil situação
financeira, que projectos pretende desenvolver?
J.G. – Quando apresentámos o programa à
população do concelho referimos que 70 por cento poderia
ser feito mesmo que houvesse pouco dinheiro e os outros 30 é
que dependiam da situação financeira que encontrássemos.
Temos consciência que herdámos uma situação
muito difícil e teremos que acabar e pagar as obras que estão
incompletas. Há problemas gravíssimos em relação
à execução do 3º Quadro Comunitário
em que o concelho perdeu quase um milhão de investimento e
que nós vamos ter que pagar. Há obras que estão
quase concluídas, mas como não se justificou a despesa,
ou seja, não se pagou aos empreiteiros, a CCDR [Comissão
de Coordenação e Desenvolvimento Regional] não
deu o dinheiro.
Pretendemos concluir, tornar utilizáveis e pagar em parte tudo
aquilo que tinha sido lançado ao longo dos últimos dois
mandatos e que não teve o devido seguimento. Há obras
por todo o concelho que não estão concluídas
e algumas estão paradas há anos, facto que resulta de
uma falta de planificação e de garantias para executar
antes de se lançar a obra.
Desta forma, só o concluir todas estas obras já será
um grande trabalho deste executivo.
No entanto, temos outros projectos que entendemos que são prioritários
e que vão dar resposta nos sectores da Acção
Social e Educação, nomeadamente o apoio à criação
de lares, centros de dia, creches, posto médico, entre outros.
B.A. – Como se encontra o concelho a nível social,
nomeadamente no que diz respeito à Saúde e ao desemprego?
J.G. – O desemprego é um problema que afecta
todo o país e que aqui também se reflecte. O que era
prioritário para este concelho, a criação de
indústria e condições para habitação,
acaba por não estar ainda à disposição
das pessoas. Se há oito anos era prioritário estancar
a sangria de perda de jovens, mais pertinente é actualmente.
Também as zonas oficinais e industriais não foram dinamizadas
e alguns investidores que procuraram o concelho não se sentiram
apoiados e acabaram por desistir. A câmara continua a ser a
maior empregadora do concelho e enquanto assim for as dificuldades
serão muitas. A autarquia tem cerca de 250 funcionários
e colaboradores o que é muito exagerado para um município
destas dimensões e mostra muito bem a dependência que
as pessoas têm em relação à câmara.
Tentou-se trazer muitos funcionários para a autarquia e a verdade
é que ainda não estão rentabilizados.
É muito difícil assegurarmos todos os vencimentos e
os direitos que têm os funcionários. Por isso é
que quando cheguei não tinha sequer orçamento para pagar
os vencimentos de Novembro e Dezembro.
B.A. – Referiu que um dos seus problemas seria o elevado
número de funcionários da autarquia. Significa que irá
haver despedimentos?
J.G. – Não vão haver despedimentos. Olhamos
para esta câmara e verificamos que tem tantos funcionários
como a de Estremoz ou outra um pouco maior, mas as características
especiais do concelho talvez o justifiquem. Preciso é que estes
funcionários se sintam parte da solução e que
cada um deles dê o seu contributo. Disse no inicio do mandato
que queria trabalhar com as pessoas que aqui estão e que não
iria haver redução de postos de trabalho. Todas as medidas
que tiver que tomar serão sempre no sentido de aumentar a nossa
eficácia e eficiência de actuação, de rentabilizar
os recursos que temos, de reduzir despesa e de aumentar receita, mas
nunca sacrificando postos de trabalho.
B.A. – Como pretende rentabilizar o Fórum Cultural
e Transfronteiriço de Alandroal?
J.G. – Entendo que a politica cultural deste concelho
não passa necessariamente pelo modelo que tínhamos no
Fórum. Era um modelo muito virado para fora e pretendia trazer
apenas artistas de renome a custos elevadíssimos e para um
público muito restrito. A nossa política será
sempre a do envolvimento da comunidade local nas actividades que desenvolvermos
e uma programação cultural que chegue a todo o concelho.
Sabemos que teremos que trazer artistas de fora, mas não vamos
apostar apenas nessa vertente. Temos que controlar os custos em todas
as actividades. Tentou-se mostrar que a Cultura funcionava, canalizando
verbas que depois faltaram noutras coisas.
B.A. – O certame Expo Guadiana será um evento
para continuar?
J.G. – Este é um ponto que está a ser discutido,
mas entendemos que o modelo de promoção que estava instalado
também não é o adequado para este concelho. A
última Expo Guadiana decorreu durante cinco dias e envolveu
verbas na ordem de um milhão e quinhentos mil euros e este
município não tem este dinheiro para gastar em cinco
dias de dois em dois anos. Dada a diversidade do concelho e de interesses
possíveis, parece-nos muito mais importante ter uma política
de feiras descentralizada, dispersa pelo tempo, com nichos muito concretos
e que traga pessoas ao Alandroal ao longo do ano. A Expo Guadiana
exigia um investimento enorme que não tinha o retorno esperado
e o número de visitantes era cada vez mais reduzido.
Poderemos manter um certame ligado às actividades económicas,
mas teremos que diversificar e realizar diversas iniciativas nos sectores
da gastronomia, cultura e relações transfronteiriças.
B.A. – Concorreu como independente. Como pensa que será
a relação com as autarquias vizinhas ao longo deste
mandato?
J.G. – Entendo que há uma boa relação
entre os autarcas do Alentejo Central e penso, pelo que conheço
de todos eles, que colocam os interesses da população
acima de tudo e estes interesses passam, sobretudo, pela boa colaboração
com os vizinhos. Penso que a esse nível todos os meus colegas
são pessoas com essa sensibilidade e responsabilidade e os
projectos que havia vão continuar.
B.A. – Para finalizar quer abordar algo que não
tenha sido focado?
J.G. – Já que o permite, aproveito para fazer um apelo
à população do concelho de Alandroal: "que
tenham paciência para podermos colocar no terreno tudo aquilo
que prometemos e estamos a trabalhar afincadamente nesse sentido!".
»» Jorge Pereira