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Menos
escola
Passaram poucas horas e já não havia muita gente no pátio
da escola. Uma das luzes ainda continuava acesa. Agora apagou-se.
Não eram muitos, mas a Escola Primária de Mamporcão
esperava uma última vez pelos pais ansiosos que trariam com eles
alguns bolos e salgados.
Para terminar o ano lectivo convidaram-se famílias, criaram-se
cenários para os finalistas desta escola. Balões de São
João pendurados a lembrar um dia para celebrar os santos populares.
Colorido.
A professora, as auxiliares e algumas mães ajudavam com os últimos
preparativos: - “Venham lá meninos, vamos vestir os fatos
novos.” (Ouvem o seu passo de corrida?) E logo se via a miudagem
a correr para o interior da escola primária com bastante alegria.
Minutos depois lá se estendia uma passadeira feita de papel e
flores onde desfilavam um a um, os finalistas e alunos mais novos desta
pequena escola.
Durou pouco tempo mas pelo empenho das crianças viu-se bastante
gosto no desfile de roupas feitas em papel e pais, professoras, amigos,
família, funcionários, babados de alegria. Aprenderam
aqui as primeiras letras, a contar, a ler, a ouvir, a respeitar, amar
e brincar.
Ouviram-se muitas palmas.
Ficaram para trás alguns anos de brincadeira e aprendizagem sempre
com o sorriso e o aviso altivo da professora que, dedica o seu tempo
à educação dos mais novos. Fá-lo bem.
Quando entregou os presentes aos seus meninos, deixou palavras rápidas:
“- Era a minha vez de dizer umas palavras... mas não consigo...”.
Seria talvez a última vez que receberia crianças na escola
que a fez mudar o caminho de Évora para uma aldeia. Sentiu-se
o coração mais rápido: - “Nazaré olha
pra mim, olha pra mim!!!” – a professora olhava para os
seus meninos e sorria.
Ouviram-se palmas.
Agora o banquete. Muitos bolos rissóis e croquetes. Frangos assados
e até camarão. Os pais desta juventude, numa ponta da
mesa, conversando sobre o futuro das suas crianças, entre comentários
e risadas: - “O meu quer ser jogador de futebol... olha o meu
quer ser toureiro... hahaha” - ouvia-se.
Mas o fim da tarde trazia o escuro da noite. A escola recebeu, talvez,
a última festa da criançada. Em 1959, recebeu a primeira.
Dizem que foi grande: - “Éramos mais de 40” - ouvem-se
comentários.
Todos deixaram um pouco de si naquele espaço. Agora trouxeram
os seus filhos para cá. Uma última vez.
Ouviam-se crianças a brincar.
Não há crianças suficientes para encher as pequenas
cadeiras da sala. Certo é que nem todas são ocupadas mas,
as vazias, não são assim tantas. Os mais pequenos não
saberão, nem estarão interessados no fecho da sua escola.
Não têm de perceber. Só sabem que vão sair
dali para brincar noutro espaço.
Nas mãos, pais, professora e funcionários, têm os
corações. Fica a dura tristeza de uma escola que possivelmente
será suspensa. Mais uma.
As crianças já largaram as últimas gargalhas, ouvem?
Tira-se a última foto. Estão todos lá. Todos.
Já não há sol. Passaram as horas e já não
havia muita gente no pátio da escola. Uma das luzes ainda continuava
acesa. Agora apagou-se.
Ouvem o silêncio? Já ninguém pára por ali.
Ouvem?
Liliano
Pucarinho
30 Junho de 2007
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