VELEZ CORREIA

 

em sentido

 

É urgente o devido
esclarecimento

Quanto a mim, há coisas que deviam ser muito bem explicadas ao País, de forma que o cidadão comum fique percebendo exactamente o que se passa e não leve essas mesmas coisas para o lado do desleixo, incúria ou negligência. Todos sabemos que no que respeita à agricultura e pescas, andamos um bocado à deriva desde há muitos anos e dói-me muito quando entramos num supermercado e verificamos que frutas e legumes são quase todos importados. Até já vi coentros da Argentina!
Os nossos agricultores estão descontentes. A agricultura não é, de forma nenhuma, apelativa para os jovens e, assim, são cada vez mais raras as pequenas empresas, tendo à cabeça gente nova, simplesmente porque se sentem desapoiados quando afinal, na minha forma de encarar as coisas, seria nela (a agricultura) que poderia estar a solução de muitos dos nossos problemas. O cultivo da terra, tal como hoje é praticado nas nações civilizadas, abrange, obviamente, a criação de animais domésticos que torna possível o aproveitamento de muitos produtos da terra e facilita a obtenção de uma grande parte dos adubos necessários para fertilizar os solos. E depois, como todos sabemos, há indústrias que estão tão intimamente ligadas ao cultivo da terra que só podem ser exploradas por agricultores.
É evidente que neste meu apontamento, por manifesta falta de espaço, não irei entrar no sector das pescas (extremamente problemático) pois tal daria “pano para muitas mangas”.
Mas voltando ao início do meu apontamento, devo dizer que acabo de ler uma notícia (ou crónica) em determinado jornal da nossa região, na qual o autor colocou o título de “MIL E QUINHENTOS MILHÕES DE EUROS PRÓ LIXO!”. Claro que não me contive sem ler toda a crónica de fio a pavio, com a maior atenção, pois quando estou à espera de um “miserável” milhão de euros para a realização de uma obra de extraordinário interesse para a nossa região (e que não há meio de chegar), um título destes é natural que desperte o meu maior interesse e que procure saber onde fica esse contentor de lixo! Segundo a crónica em questão, o autor afirma que o nosso País “tem à disposição 1 500 milhões de euros de fundos comunitários para investimento e desenvolvimento da agricultura portuguesa, que foram negociados em Bruxelas, mas que ainda não foram utilizados, correndo-se o risco de o não virem mesmo a ser pelos agricultores portugueses”. E faz graves acusações ao Governo por esta situação calamitosa. E eu ouso perguntar: não há ninguém responsável que venha refutar estas graves acusações? Espero sinceramente que sim, porque o cidadão comum tem o direito de ser devidamente esclarecido sobre o que na realidade se passa. É muito dinheiro! São muitos postos de trabalho que se perdem! São muitos hectares de terreno que continuam inférteis! E depois faz ainda uma série de afirmações com as quais qualquer cidadão terá de concordar, em face da situação que atravessamos. É por isso que eu gostaria que alguém responsável, repito, viesse a terreno pôr a limpo o que na realidade se passa e que leva o Governo da Nação a “deitar para o lixo” tanto dinheiro destinado a uma grande causa, a agricultura em Portugal. É que afirmações destas deixam-nos confusos, deixam-nos atónitos e, pelo menos no meu caso, com muitas, muitas dúvidas sobre a veracidade das mesmas. Anda aqui a política a mexer? Certamente que sim, mas o autor pôs o preto no branco. Será fidedigna a “fonte” onde foi “beber”? É isso que eu e os muitos leitores que a leram, gostariam de ver devidamente esclarecido. Portanto, é urgente que o seja.

BRADOS 701 - 27 NOVEMBRO 2008

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Os nossos Vinhos
Como sempre acontece, tomei a correcta posição de Em Sentido e meditei durante alguns momentos sobre o tema a abordar nesta quinzena e nesta coluna que o nosso Brados pôs à minha disposição. E entre alguns, veio-me à ideia a crise financeira que atravessamos e qe está, de certo modo, a abalar o mundo, mas o que iria eu adiantar ao muito que se tem escrito e falado ultimamente sobre este sério problema que, com razão, nos preocupa sobremaneira? Resolvi então mudar de tema e (calculem) detive-me no vinho! É que ele está profundamente ligado, pelo menos no nosso país, com o São Martinho que se aproxima a passos largos e, além disso não só para o Alentejo, mas para o nosso Portugal, ele representa uma grande riqueza. Portanto, o vinho, esse néctar saboroso e de qalidade excelente que as regiões de Estremoz, Borba, Portalegre, Reguengos, Redondo, Vidigueira, etc., etc. produzem, bem merece que o EM SENTIDO lhe dedique a coluna de hoje.
Na realidade, o bom vinho da nossa região é bebido em muitas partes do mundo e, duma maneira geral, para todos os povos não é apenas o espevitador de boa disposição, o estímulo de um bom negócio ou o pretexto para uma boa refeição e dois dedos de conversa; ele é, além de um salutar reconfortante, o verdadeiro incentivo do trabalho. E admitir um Zé Povinho que desconheça uma boa pinga em amena cavaqueira numa boa tarde de descanso, seria como que negar a figura que Rafael Bordalo Pinheiro genialmente pintou e em lugar de um sorriso sadio e folgazão, modesto e confiante, teríamos de conceber o ar tristonho de alguém que é apanhado de surpresa pela realidade da triste vida, vergando desanimado sob o fardo duma existência dura, que refaz a energia diária no pão seco molhado em água desenxabida.
Louvemos então os nossos vinhos que dão o pão de cada dia a muitos milhares de portugueses e que, muito justamente, deve ser considerado como bebida nacional. Tem os seus inconvenientes nos tempos que correm? Tem efectivamente, como aliás sempre teve, desde que ingerido em excesso. Actualmente é o causador de muitas mortes em acidentes de viação, mas não é só este precioso líquido alcoólico produzido pela fermentação do sumo da uva o culpado desse grande drama da actualidade, como todos sabemos. Ele terá efectivamente a sua quota-parte de culpa, mas existem outras bebidas que produzem efeitos mais nefastos ainda...
O meu leitor certamente que gostaria doutro tema para o meu apontamento desta quinzena, quiçá, com um certo “acompanhamento” para m copo. Peço que me desculpe, mas o velho adágio de “pelo São Martinho, vai à adega e prova o vinho” sugeriu-me falar da boa pinga (não vou apontar marcas para entrar não entrar na publicidade) e desviar-me de temas sombrios que tanto nos preocupam nos tempos que correm como o desemprego, a carestia da vida, a insegurança, a injustiça e tanta calamidade que grassa neste país que é o nosso. Deu-me para dissertar um pouco sobre os nossos vinhos que dão alegria aos nossos encontros de confraternização, que animam as nossas conversas e nos deixam bem dispostos. E, já agora, se o meu leitor não sabe, então fique sabendo que o homem não consegue indicar, com precisão, as origens da vinha. Há, todavia, indícios da presença da videira no mundo desde a mais remota antiguidade, tudo levando mesmo a crer, segundo os entendidos, que precedeu o próprio homem. Os cientistas fazem-na usualmente datar dos alvores do período Terciário.
Pois, Em Sentido, ergo o meu copo, com um dos bons vinhos da nossa região e lanço o grito: Viva Baco, o deus do Vinho!

N.R. – Este texto foi produzido para o Brados 699 (30.Out.2008) mas foi 'substituído', pelo autor, à última hora. Por isso a discrepância com a data do São Martinho.

BRADOS 700 - 13 NOVEMBRO 2008

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Gesto muito raro nos tempos
que correm

No próximo ano completam-se 30 anos sobre a data em que se realizaram em Estremoz as comemorações do 25 de Novembro, presididas pelo Presidente da República, na altura o senhor general Ramalho Eanes, estando presente a a senhora primeira ministra de Portugal, a engª. Maria de Lourdes Pintasilgo. A imponente Cerimónia Militar realizou-se no nosso majestoso Rossio Marquês de Pombal e o Comando do RC3 transformou o picadeiro do Regimento numa imponente sala de jantar onde se realizou o almoço.
Era eu um Dragão de Olivença, no activo, mas, em paralelo e devidamente autorizado pelas Chefias Militares, desempenhava funções nos Corpos Sociais dos Bombeiros Voluntários da cidade e, assim, era uma espécie de “oficial às ordens”, “assessor”, “escriturário” e o “homem da justiça” do saudoso José Carlos Luna, presidente da Direcção. Pois durante o almoço, o amigo Luna, insistiu comigo no sentido de levarmos o senhor Presidente da República a visitar o pardieiro (não encontro outra designação mais adequada) onde funcionava a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Estremoz. Houve um certo acanhamento da minha parte, mas da parte do José Carlos Luna havia a força da Razão e, assim, não hesitou em convidar o primeiro magistrado da Nação que logo, de forma muito simpática, aceitou o convite. E lá foi, a pé, efectuar a visita. Quando chegou, lembro-me da sua expressão de espanto e das palavras que proferiu: “Mas é aqui que funciona a Associação dos Bombeiros desta cidade?”. Posto a par, em palavras muito breves, da situação em que se encontrava a construção do novo quartel (terreno cedido, projecto aprovado) faltando a atribuição da respectiva verba, o senhor Presidente da República prometeu que se iria interessar pelo assnto. E interessou-se realmente porque, a partir desse momento, as coisas começaram a “mexer” no bom sentido. E anos depois, mediante um convite que lhe dirigi directamente, na qualidade de presidente do Conselho Fiscal da Associação, visitou o quartel e gostou. Ora este grande êxito foi considerado pelo saudoso José Luna um “milagre”, visto que bendizia a hora em que o Senhor General veio a Estremoz.
Ora bem, o senhor general Ramalho Eanes já deu, ao longo da sua vida, sobejas provas de desprendimento de bens terrenos, pelos quais tantos, de forma por vezes ostensiva, lutam muito para além do razoável. E para provar o que afirmo, quando, no posto de tenente-coronel, foi graduado em general de 4 estrelas para desempenhar as funções de chefe do Estado Maior do Exército, recusou receber o diferencial do vencimento do seu posto efectivo; mais tarde, recusou também a promoção a marechal e, em data recente, não aceitou receber os rectroactivos de valor superior a um milhão de euros que lhe eram devidos por passar a ser abrangido pela Lei que permite aos ex-Presidentes da República acumular a respectiva pensão com outras a que tenham direito.
Então, mesmo que alguns me acusem de oportunista, eu ouso lançar daqui um apelo ao Senhor General Ramalho Eanes. É que é precisamente a importância que V. Exª. entendeu não receber (gesto muito raro nos tempos que correm) que o Núcleo de Estremoz da Liga dos Combatentes tem necessidade para erguer a sua Casa para a Idade de Ouro da sua massa associativa! Tal como os Bombeiros, há 30 anos, temos o terreno, temos o projecto aprovado e temos uma vontade imensurável de erguer tal obra que está fazendo muita, muita falta no Alentejo. Mas, tal como sucedia com o tão sonhado quartel dos Soldados da Paz, também a verba não há maneira de ser disponibilizada para o efeito. Na rigorosa posição de EM SENTIDO lhe peço, meu General, que, se ainda for a tempo, mantenha a recusa de usar o milhão de euros em seu proveito, mas mande canalizar tal importância para esta obra. É que, em Estremoz, operar-se-ia um segundo “milagre”! Na minha qualidade de presidente da Direcção do Núcleo, prometo-lhe solenemente que tudo faria para que a Casa para a Idade de Ouro ficasse com o seu nome gravado a letras de ouro (isto no caso de V. Exª. aceitar, como é evidente).

BRADOS 699 - 30 OUTUBRO 2008

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