JOSÉ DOMINGOS RAMALHO

 

com sequências

 

A Aristocracia Sindical
Desde o 25 de Abril de 1974, até aos dias de hoje, quantos líderes sindicais consegue identificar? Eu, com um esforço de memória só consigo lembrar-me de Torres Couto, João Proença e Carvalho da Silva. Quer isto dizer que, ou a minha memória é curta ou então, em mais de 30 anos de sindicalismo, as lideranças dos sindicatos portugueses têm estado sempre nas mãos de três ou quatro pessoas.
Se fizermos o mesmo exercício para os primeiros ministros (PM), facilmente qualquer português minimamente informado consegue identificar sete ou oito antigos PM o que não deixa de ser significativo. A conclusão pode ser precipitada mas está bom de ver que a jovem democracia portuguesa tem permitido, apesar de tudo, uma rotatividade democrática que não é acompanhada, nem de perto nem de longe, pela vida interna dos sindicatos. Imagine que um governante se conservava no poder durante 20 anos. Provavelmente seria apelidado de ditador. Pois bem, Manuel Carvalho da Silva, líder da central sindical CGTP está lá desde 1986, isto é, há 22 anos..., entretanto Torres Couto "exilou-se" no Brasil e João Proença "anda por aí"...
Nada tenho contra os sindicatos, mas sabendo-se que o número de sindicalizados tem baixado significativamente, fará sentido que em muitos sectores de actividade, ainda haja o mesmo número de dirigentes sindicais a tempo inteiro desde o 25 de Abril?
Dá que pensar o que fará tanto dirigente metido nos gabinetes dos sindicatos. Obviamente não me revejo no modus operandis destas organizações politico-partidárias. Sim politico-partidárias, leu bem. Considero que os sindicatos são extensões dos partidos onde os dirigentes, salvo honrosas excepções, desempenham cargos de "oportunidade política", ajeitando-se aos sabores da ideologia dominante ou agindo de acordo com as ondas dos calendários eleitorais. Sinceramente gostava de ver a mesma energia e o mesmo empenho nalguns sectores de actividade que vejo na organização e na angariação de "carne para manifestações". As recentes "guerras políticas" do sindicalismo português só confirmam a regra.
Veja-se o alarido que por aí vai depois dos CTT resolverem colocar um ponto final na isenção de horário dos seus 81 (!) dirigentes sindicais. Percebe-se agora por que é que estes sindicatos se recusaram a renegociar o antigo contrato colectivo e foram tão lestos a convocar greves sobre greves para tentar impedir a sua caducidade. Compreende-se agora os prejuízos causados à empresa, ao público e aos próprios trabalhadores, que, ingloriamente perderam os salários dos dias de greve: Tudo para salvaguardar os inaceitáveis privilégios dos próprios dirigentes sindicais.
Esta semana soube-se também que os sindicatos da CGTP fazem cobranças aos trabalhadores despedidos que não são sindicalizados (18 meses de quotas e 10% das indemnizações?).
Quando é que os sindicatos perderão a componente partidária e defenderão verdadeiramente os seus associados? Quanto tempo mais durará esta espécie de aristocracia sindical?

BRADOS 701 - 27 NOVEMBRO 2008

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As cenas trágico-cómicas
dos nossos dias

Calculo que desde a formação do Reino de Portugal (em que um filho resolveu combater a própria mãe) que os portugueses mantêm uma estranha atracção para os episódios em que abunda a trágico-comédia. Poderia aqui recordar alguns momentos burlescos que marcam a história de Portugal, desde o misterioso desaparecimento de D. Sebastião, à veneração dos boémios Camões e Bocage, para depois evocar o dia em que Salazar caiu da cadeira. Se vermos bem, em todos eles há uma espécie de heroísmo patético e uma soberba que chega a ser confrangedora que faz de nós (os portugueses) os maiores do mundo. Se deixarmos a emoção de lado, rapidamente conseguimos descortinar que nestas estórias da história nacional existe sempre, pelo menos uma criaturinha que, para além do tal heroísmo patético e da soberba, ainda consegue exibir algum dote ou façanha sobrenatural. Nos últimos tempos temos assistido ao regresso, ou se quiserem à continuação desses exemplos onde os portugueses parecem ser especialistas de primeira água.
Veja-se a rábula de Gondomar onde toda a gente já percebeu que a equipa do major valentão combinava os resultados da equipa de futebol local à custa de favores, telefonemas e oferendas aos árbitros. A comédia chega quando por fim se conclui que afinal as escutas telefónicas, apesar do “conteúdo manhoso”, são ilegais, logo não podem ser consideradas pelos tribunais. Atente-se na vergonha de Felgueiras onde o episódio do saco azul “já cheira mal”, a fuga para o Brasil da sorridente autarca (como se houvesse razões para sorrir) nos envergonha a todos, para no fim dos julgamentos e audiências se apurar, que afinal o crime que daria a perda de mandato (único desfecho razoável) já prescreveu. Dá para rir, se não desse vontade de chorar.
Olhe-se igualmente a mais recentemente “barraca” do sistema bancário ocorrida no BPN, onde ex-governantes trabalharam arduamente em prol das suas reformas e poupanças e pasme quando souber que entre Agosto e Outubro deste ano “voaram” do banco cerca de 700 milhões de euros. Como de costume, algumas luminárias querem fazer-nos crer que a culpa é dos outros. A ver se eu percebo? Avolumam-se as suspeitas de irregularidades e lavagem de dinheiro, o dinheiro desaparece e, a culpa é do Governador do Banco de Portugal, porque deveria ter avisado o mundo, que estes senhores estavam a arruinar os cofres do banco?
Nesta estranha avidez pela tragédia cómica os portugueses são agora gozados no mundo inteiro porque numa pequena ilha do seu território, onde o governante tem por hábito vestir-se de palhaço, indígena ou baiana no Carnaval, há agora um deputado dum insignificante partido político, que depois de ter aparecido com um relógio de parede dependurado do pescoço, resolveu desfraldar uma bandeira nazi na assembleia regional. O trágico é terem feito caso do senhor e a comédia é terem-no proibido de entrar na assembleia. Quantos mais teriam que ter ficado à porta nos últimos anos?

BRADOS 700 - 13 NOVEMBRO 2008

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Garantir a responsabilidade
Sabe quanto pode ganhar um administrador executivo do sector bancário? Não? Provavelmente a maioria das pessoas também não faz ideia de que o salário mensal dum alto quadro do sector financeiro pode chegar a ser 33 vezes mais elevado do que o vencimento médio dos restantes trabalhadores. A fazer fé no que diz a comunicação social, um administrador executivo, por exemplo do BCP pode ganhar 67 vezes mais do que um trabalhador do mesmo grupo. Segundo os media, há muito tempo que alguns bancos portugueses “prendam” os seus administradores executivos com vencimentos anuais superiores a um milhão de euros, e há mesmo uma entidade bancária, em que o “tratamento” é de 2,99 milhões de euros por administrador. Este ano ficámos a saber que o salário médio dos gestores em Portugal é de 21 mil euros por mês, o que para além de ser escandaloso, é moralmente reprovável, quando comparado com os sacrifícios que têm sido pedidos aos portugueses.
Não está em causa o mérito nem a valia técnica destes quadros mas neste momento de grave crise mundial, a pergunta que toda a gente faz é, porque razão estes homens e mulheres pagos a peso de ouro, não previram a hecatombe financeira que se está a abater sobre as nossas cabeças? Em última instância pode-se até questionar porque razão não são eles co-responsabilizados com o desastre financeiro que assola o sistema bancário mundial? E numa altura em que tanto se fala em avaliação por objectivos até parece que, ao longo destes anos, a ineficácia dos gestores tem sido premiada com verbas e valores do outro mundo. Como muito bem teorizou o António José Ramalho (AJR) na última edição do Brados, a figura do gestor parece endeusada nesta sociedade. Concordo que "na empresa moderna, o poder decisivo, o dos gestores, não deriva de ninguém a não ser dos próprios gestores, controlados por nada e por ninguém e responsáveis perante ninguém. Trata-se, no sentido mais literal, de um poder infundado, injustificado, incontrolado e irresponsável." Sabe-se que o problema não é de hoje. Percebe-se que a disparidade de salários é um assunto “delicado” para mexer e que só muito recentemente alguns sectores mais conservadores arriscaram a criticar as empresas onde os altos dirigentes auferem rendimentos «injustificados e desproporcionados» face aos salários médios dos seus trabalhadores. Conhecendo-se que Portugal é o país da UE onde existe a maior disparidade entre ricos e pobres, ninguém pode deixar de se inquietar perante uma certa impunidade de que parecem gozar os administradores executivos de algumas instituições bancárias.
É por todas estas razões que, sem pôr em causa o mérito da medida, me parece discutível que o Estado (leia-se todos nós), se tiver de assumir as dívidas de um banco, aplique um plano de garantias, sem que antes se responsabilizem aqueles que durante anos auferiram num mês, valores que dificilmente a maioria do Portugueses conseguirá amealhar a vida inteira.

BRADOS 699 - 30 OUTUBRO 2008

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