MARIA DO CÉU PIRES

 

cidadania

 

Democracia II
Continuemos hoje a falar de Democracia e das perversões a que a sua prática tem, nos últimos tempos, conduzido.
Assumindo-se como representativa, significa que o povo delega em determinados indivíduos (os seus representantes) o poder. Desta forma, os deputados que têm lugar na Assembleia da República quando votam, quando falam, quando exercem o seu trabalho nas comissões parlamentares, deverão fazê-lo em sintonia com aqueles que os escolheram. Deverão, por isso, estar atentos ao pulsar da sociedade civil e estabelecer contactos directos com as populações dos círculos pelos quais foram eleitos. Na “casa da democracia” deveriam ser porta-vozes dos problemas e indicadores de soluções.
Ora, o que, de facto, acontece é algo bem diferente e contraditório com o princípio da representatividade pois a ligação entre eleitos e eleitores é praticamente inexistente. A quase totalidade do trabalho parlamentar é realizada ignorando a opinião dos eleitores e os compromissos que com eles se assumiram. As raras excepções que existem apenas confirmam a regra. Todo o processo de comunicação e interacção está viciado: a única voz que os deputados ouvem é a do chefe partidário pois é ele que vai decidir a próxima lista... Convém então não desagradar!
E, se esta ausência de comunicação é generalizada, ela torna-se mais acentuada quando se trata dos deputados do partido que num determinado momento está no governo. A disciplina partidária é imposta e os representantes depressa esquecem quem representam, passando a sua actuação a ser totalmente dependente dos interesses político/ estratégicos do “chefe”. A autonomia de pensamento e acção deixa de existir e o fosso entre o povo e os seus representantes aprofunda-se. O que, como sabemos, gera desconfiança e apatia, as sementes mortíferas da democracia.
Esta situação torna-se asfixiante e poluidora de ambientes democráticos quando, no Parlamento, maiorias absolutas se conjugam com personalidades autoritárias e arrogantes. Neste caso, o diálogo e a negociação, núcleos centrais da democracia, dão lugar ao absolutismo e à imposição de uma vontade única que não aceita/admite ser posta em causa. Transita-se, por esta via, de uma forma rápida e evidente para um novo regime: ditadura da maioria. Os deputados da maioria passam a ser figurantes de uma peça de que não são autores mas que lhe garante a sobrevivência política, isto é, a manutenção de um número razoável de privilégios.
Pergunta-se: é representativa esta democracia? É. Mas de quê e de quem? Não do povo, mas das elites partidárias cujo único objectivo é perpetuarem-se no poder. Chamemos-lhe então o seu verdadeiro nome: partidocracia. E tenhamos consciência da esquizofrenia característica destes tempos: o fosso entre a política tal como foi pensada e aquilo que é a política vivida por estes protagonistas que até para escrever um discurso contratam assessores…

BRADOS 701 - 27 NOVEMBRO 2008

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Isto é democracia?
Após a experiência vivida em Atenas no século V a.C., a democracia nos tempos modernos surgiu como uma forma de oposição da burguesia nascente em relação aos privilégios feudais. Passados três séculos, importa perguntar: que caminhos foram seguidos? Qual é o estado actual desta forma de governo? Como se exerce o “governo do povo” nos países democráticos?
Desde o início que se colocaram duas vias possíveis de entendimento da democracia: como participação efectiva dos cidadãos na vida pública ou como governo das elites às quais os cidadãos outorgam poder. A primeira, democracia participativa, apresenta-se como uma forma de vida, baseada na autonomia dos indivíduos e visa a responsabilidade e a solidariedade na construção da justiça. A segunda está associada à ideia do cidadão consumidor que se limita a assimilar a publicidade dos políticos que lutam (como as diferentes marcas) pelo voto. Há, entre estes, os que se auto designam como “ a marca”.
Embora qualquer destes modelos coloque problemas, o que impera nos países ocidentais, o segundo, está na base do que já é vulgar designar-se como “crise da democracia”. Portugal é um exemplo claro de como esta forma de organização política tem que ser repensada e redefinida pois parte significativa da vida pública do país está a aproximar-se progressivamente de práticas características de regimes totalitários.
Quando um/uma presidente de Câmara consegue que um tribunal ignore as provas de corrupção, tráfico de influências e favorecimentos pessoais e se refere a si próprio/a como sendo a encarnação da verdade, algo vai mal… Quando um juiz constata que ficou provado “boa parte dos factos” e, contudo não considera as falsificações, os concursos simulados, e o favorecimento de empresas e partidos como penalizadores do interesse público, algo vai muito mal… Quando a prepotência é a regra e a corrupção é a lei, de que democracia se está a falar?
Quando um/uma ministro/a mente despudoradamente e usa a comunicação social para manipular a opinião pública, algo vai mal… Quando mais de dois terços de uma classe profissional expressam a sua discordância em relação a uma determinada orientação e os responsáveis dizem que tudo está a decorrer normalmente, algo vai muito mal… De facto, para quem governa hoje, 120 mil pessoas na rua é um pormenor irrelevante! Quando uma Direcção Geral/Regional manda perguntar os nomes dos que se opõem à política governativa… Quando um primeiro-ministro se regozija com a sua inflexibilidade, e, numa arrogância desmedida, grita falsidades para uma plateia anestesiada, negando qualquer espaço de negociação, podemos, legitimamente, questionar-nos:
Isto é democracia?

BRADOS 700 - 13 NOVEMBRO 2008

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As sociedades contemporâneas apresentam alguns aspectos paradoxais: por um lado, cresce o individualismo e a indiferença perante o sofrimento alheio, por outro lado, desenvolvem-se movimentos de voluntariado que abrangem já largos sectores da população e que são indício de crescentes sentimentos de solidariedade e de preocupação pelo outro.
Em Portugal tem crescido nos últimos anos, o número de pessoas que, de uma forma desinteressada trabalham em acções de interesse social e comunitário. São, felizmente, cada vez mais aqueles que dedicam parte do seu tempo a ajudar os que mais necessitam. Não os move a busca de riqueza material ou notoriedade mas o espírito cívico, a vontade de contribuir para a construção de um mundo melhor nem que seja apenas a nível local ou de uma pequena comunidade.
Também em Estremoz temos alguns bons exemplos de instituições e grupos de pessoas que se preocupam com o bem-estar dos outros e que, generosamente, de forma não remunerada, se dispõem a dar um pouco do seu tempo, do seu conhecimento e do seu empenho para que os mais desprotegidos se sintam apoiados e algumas das suas necessidades sejam satisfeitas.
O Banco do Tempo constituído por pessoas de diferentes áreas profissionais, algumas encontrando-se já aposentadas, desenvolve um trabalho meritório sobretudo na ajuda a idosos facultando apoio domiciliário e acompanhamento ao Centro de Saúde, a instituições bancárias, às compras, etc.. Para além da ajuda em tarefas domésticas, em pequenos arranjos, na assistência à saúde (por exemplo, medição de tensão arterial e da diabetes) o apoio domiciliário inclui também nas suas preocupações o apoio afectivo, pois a solidão é, entre os idosos, um problema tão premente como a falta de alimento.
O recentemente constituído Centro Local de Apoio à Integração dos Imigrantes (CLAII) é outro bom exemplo deste espírito de ajuda aos mais vulneráveis. Resultante de um protocolo estabelecido entre a delegação de Estremoz da Cruz Vermelha e o Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural, este centro local, como os cerca de 80 existentes em todo o país, dará, na região de Estremoz, resposta às necessidades de acolhimento e integração dos cidadãos imigrantes. Dá igualmente continuidade a um trabalho desenvolvido de forma muito positiva, desde há já bastante tempo pela delegação de Estremoz da Cruz Vermelha, nomeadamente através do Projecto “Entre Nós”.
É bom constatarmos que em Estremoz há muita gente solidária. São precisamente estas pessoas que crescem interiormente, exercem a verdadeira cidadania e se tornam grandes em humanidade pois como disse o escritor inglês John Ruskin. “A maior recompensa do nosso trabalho não é o que nos pagam por ele, mas aquilo em que ele nos transforma.”

BRADOS 699 - 30 OUTUBRO 2008

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