A meu ver**

 

»» Em Agosto e aproveitando a ausência – felizmente – de incêndios florestais, a imprensa dita de «referência» criou na opinião pública a ideia de que em Portugal se vivia uma onda de criminalidade e que de repente nos tínhamos transformado num país inseguro.
Não menorizando a gravidade dos factos ocorridos, a criminalidade violenta aumentou em relação ao primeiro semestre do ano passado. Só que o ano passado foi o melhor dos últimos seis anos. Assim, estamos a brincar com estatísticas ou, pelo menos, a não dizer toda a verdade. Por outro lado, temos níveis de criminalidade violenta muito inferiores à maioria dos países desenvolvidos.
Logo, a mediatização da criminalidade cria um sentimento de insegurança desmentido pela realidade.
Aproveitando os nossos medos colectivos, logo aparecem populistas a defender as mais variadas medidas, desde a aplicação da pré-histórica pena de morte, passando pela tortura ou pelo «regresso» do Salazar.
Outros, mais comedidos, acham que a culpa está na lei, devendo esta ser modificada e serem alargados os casos de aplicação da prisão preventiva.
Acontece que o Código Penal e o Código do Processo Penal foram aprovados há menos de um ano, fruto de um consenso entre o PS e o PSD e mau seria que estes partidos tomassem desde já a iniciativa de alterarem a referida legislação. Legislar segundo as notícias nunca dá bom resultado. As leis penais sofrem sempre de serem acusadas de laxistas quando as coisas estão agitadas e de autoritárias quando estudo está calmo. Meter todos os suspeitos na prisão é violar a presunção de inocência que todos devemos gozar e não resolve nada. Apenas vai adiar as coisas (os presos irão sair um dia) e acarretar indemnizações para aqueles que foram injustamente presos.
Não existem sociedades sem violência e criminalidade e é necessário definir prioridades ao nível da Justiça, começando talvez pelo combate à violência doméstica que não abre os telejornais mas que se traduz na morte de uma mulher por semana.
É preciso igualmente isentar de custas judiciais os processos que envolvam pessoas, tornando a justiça acessível a todos e não apenas a quem a pode pagar; melhorar o policiamento e a eficácia da investigação criminal, mas, a meu ver, a melhor maneira de combater a criminalidade é a aplicação de políticas sociais e de educação.
Quanto à «onda de criminalidade», vai ir e voltar como as ondas propriamente ditas, até porque é preciso noticiar o início do ano lectivo e o novo ano político.
Mudando de assunto, aproveito este espaço para dar os parabéns ao Até Jazz Café pelo seu 4º Aniversário: continuem!!! Falando de jazz, não percam, a partir de 15 de Setembro o Est’Jazz (Festival de Jazz de Estremoz), organizado pela Câmara Municipal de Estremoz.

João Oliveira Vieira
BRADOS 695 - 04 SETEMBRO 2008

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»» Nunca tantos portugueses assistiram a touradas como hoje. Ainda recentemente, a X Corrida TVI foi visionada por cerca de 3.800.000 telespectadores (um milhão presenciou-a do início ao fim), obtendo 46,7 por cento de share (53 por cento na última meia hora).
Goste-se ou não, os números não enganam: as touradas são uma realidade ao gosto dos portugueses, e esse aspecto chega por si só para legitimar a tradição. A festa brava tem cada vez mais aficcionados e ganhou por isso o seu espaço no futuro. Assim persista este estado de coisas e aqueles que estão contra ela lutarão apenas contra moinhos de vento...

Enquanto Manuela Ferreira Leite, em entrevista a uma cadeia de televisão, defende que o casamento tem o intuito fundamental da procriação – e, como tal, se deve reservar a relações homem-mulher –, a Juventude Socialista, com o primeiro-ministro presente, volta a insistir publicamente na ideia da legalização dos casamentos homossexuais. O tema será sempre polémico, mas aos olhos de muitos portugueses vem estabelecer uma diferença óbvia: dum lado, uma oposição conservadora que distingue a pessoa humana mediante a sua orientação sexual; do outro, uma posição moderna e sofisticada que defende um tipo de igualdade sem discriminações pontuais. Simplificando ainda mais, de um lado a estagnação empoeirada e do outro a ousadia de querer equiparar o país com as democracias mais efectivas. À boa maneira americana, pelo perfil dos principais oponentes, em Portugal também se votará conservador ou democrata nas próximas eleições.

Um candidato a sério! Enquanto os partidos mais “fortes” do concelho, numa maneira incompreensivelmente tímida, quase anónima, de fazer oposição, vão protelando o anúncio público de quem será o seu candidato à Câmara de Estremoz, Luís Assis, o homem que concorre pelo CDS/PP, faz-se presença notada nos eventos e surge na praça pública a falar de assuntos relevantes para os estremocenses. E enquanto PSD e CDU, sem uma referência clara, se remetem a um estado não opinativo sobre o que quer que seja, e o PS divaga no seu universo autista e auto-elogioso, Luís Assis apresenta uma discurso claro, que chega com simplicidade às pessoas e deixa marcas.
Quem ainda não notou que ele aí anda, por menosprezo ou mera distracção, depois não se admire se as contas aparecerem baralhadas no dia das eleições. Não pela vitória a que pode ambicionar, mas pelas derrotas que pode ajudar a provocar.

Somos mesmo filhos de um deus menor, agora é oficial. Está em consulta pública uma proposta da Anacon a sugerir que quem utiliza a banda larga no Litoral e nos grandes centros urbanos pode vir a pagar menos do que o resto do País. O PSD alertou para o facto de os cidadãos de alguns concelhos irem pagar mais 57 por cento do que um cidadão que resida em Lisboa por este serviço da Portugal Telecom, referindo-se a “um País a duas velocidades e a dois preços”. Paulo Campos, secretário de Estado das Telecomunicações, disse ao Correio da Manhã que está a acompanhar o processo de consulta pública e que "faz uma análise positiva" da proposta. Há coisas que deixam uma cegarrega sem pio, e o desplante com que se propõe uma coisa destas é definitivamente uma delas...

A Ciência esteve na rua em Estremoz e foi merecidamente elogiada por todos. Centro de Ciência Viva e Câmara de Estremoz estão de parabéns pelo que fizeram. Mas nenhum dos promotores do evento fica bem no retrato pelo que deixou de fazer a seguir. O estado vergonhoso em que foi deixado o Lago do Gadanha macula muito do ar de dignidade que o evento quis e conseguiu transmitir. Não sei quem não fez a sua parte mas, para a credibilização de ambos, impunha-se um “se não limpas tu limpo eu”...

Pedro Pereira
BRADOS 694 - 24 JULHO 2008

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»» Depois de terminar o ano de 2007 em beleza e de um bom começo de 2008, a vida está cada vez mais complicada para Sócrates.
Mesmo no fim de 2007, e terminando a presidência portuguesa da União Europeia, o "Menino de Ouro do PS" consegue o acordo dos 27 para o Tratado de Lisboa e, a nível interno, o "milagre" de controlar as contas públicas, mantendo o déficit abaixo dos 3%, entrando assim em 2008 recebendo elogios de todos os lados, quer em Portugal, quer no estrangeiro.
O povo manifesta-se nas ruas, mais de 100 mil professores juntam-se aos protestos, e o primeiro-ministro nem dá importância. Para ele já era normal, todas as semanas há manifestações e ele já nem liga.
Lentamente, o petróleo começa uma subida imparável e vai estragando as contas e os objectivos do Governo para 2008, vindo Sócrates remendando os objectivos, e fazendo declarações de calma e adiar projectos e objectivos. Pelo meio vai inventando enredos para manter o povo entretido, como o congelamento dos passes sociais, mas... apenas no Porto e em Lisboa!
Os pescadores fazem greve e o Governo lá arranja umas manigâncias para os fazer voltar ao mar, com a cabeça ocupada a tentar perceber o que tinham ganho, para chegarem à conclusão de que nada levaram.
A seguir veio a manifestação dos camionistas que, sem nos darmos muito conta, pararam o país e, se mais uns dias durasse, muito complicada mesmo ficava a vida dos portugueses.
Pelo meio, e sem que muitos notassem, a autoridade do estado de direito foi gravemente posta em causa, sem que os partidos de esquerda a isso se referissem, não querendo pôr em causa o seu apoio aos grevistas.
Estes, tal como os pescadores, voltaram ao trabalho, com uma quantidade enorme de contas para fazer para chegarem à conclusão, que quase nada tinham ganho do Governo.
Farto de todas estas confusões, e mais as recentes que Manuela Ferreira Leite lhe vai arranjando agora que é presidente do PSD, levaram a que o primeiro-ministro tivesse cada vez mais saudades da presidência portuguesa da UE. Belos tempos esses. Apenas trabalhava em questões de interesse, questões europeias, deixando o país e os seus problemas menores em auto-gestão. Tempos em que até o líder da oposição se atrapalhava sozinho não fazendo sequer Sócrates pensar em oposição mas sim numa nova maioria absoluta.
E foi por causa dessas saudades que, no passado dia 30 de Junho, Sócrates lançou a sua biografia. Intitula-se "Sócrates, o Menino de Ouro do PS" e foi apresentado por Dias Loureiro (PSD).
Por uns dias Sócrates conseguiu os dias de glória do final de 2007; conseguiu até ter o PSD a seu lado.

Hugo Francisco
BRADOS 693 - 10 JULHO 2008

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»» Há uns escassos meses o senhor Correia de Campos (que lá vai) garantia, esganiçado, que as reformas que ele e sua equipa estavam a promover nos sistemas de saúde eram para melhorar os serviços e em benefício dos utentes. Dizia então o ministro que o Povo vivia iludido com centros de saúde e 'urgências' de fachada. Ele prometia modernos meios e equipamentos:VMERs SIVs na classes dos móveis e SUBs e hospitais de retaguarda devidamente dotados com o pessoal necessário e especializado.
Só que das promessas à realidade vai uma distância, por vezes, fatal.
No passado mês de Maio, só no Baixo Alentejo (distrito de Beja) no espaço de uma dúzia de dias, a 'menina dos olhos' do ministro que já foi, a VMER estacionada na cidade de Beja, falhou quatro chamadas de emergência. Uma na cidade de Beja, outra de Ourique e duas para o concelho de Ferreira do Alentejo. Por falta de médicos disponíveis, desculparam-se os responsáveis. E o resultado saldou-se em duas mortes, ambas no concelho de Ferreira. Uma cifra ínfima, se comparada com a quantidade de serviços efectuados, dirão alguns bem intencionados. Isso foi no Alentejo profundo, região de gente indolente e de velhos ociosos, dirão outros, mais descarados e sem-vergonha.
Pois. Mas na mesma altura, em Quarteira, no Allgarve do senhor Pinho, a inoperância da VMER e a falência dos modernos hospitais do Ministério de Correia de Campos e Ana Jorge voltaram a matar. E se dos idosos baixo alentejanos eu só possa lamentar a sua morte, porque os não conhecia, no último caso, porque a desaparecida era estremocense, já me toca mais de perto e dói-me.
E dói-me mais ainda quando me chegam ecos de que foram precisos apenas uns meros vinte minutos para um certo governante ser atendido, de urgência, numa unidade hospitalar do Porto.
Quantos anónimos portugueses terão sido abusivamente ultrapassados por tal senhor engenheiro?

Portugal é o país com mais desigualdades sociais. É o mais atrasado do pelotão dos 27. É o mais endividado.
Quem é que afirma isto?
Os senhores de Bruxelas que mandam nos senhores de Lisboa que mandam na gente.
«A corrupção e a promiscuidade entre entre diferentes poderes criaram no País um clima de suspeição que mina a confiança no Estado democrático. Numa democracia moderna, os direitos políticos são inseparáveis dos direitos sociais. Se estes recuam, a democracia fica diminuída.
O grande défice português é o défice social, um défice de confiança e de esperança.»
Quem foi que disse?
Manuel Alegre, vice-presidente da Assembleia da República e membro (fundador) do Partido Socialista português.
Foram muitos, muitos mil. Saíram do Minho, de Trás-os-Montes, do Porto, das Beiras, do Ribatejo, do Alentejo, do Algarve, alguns ainda o dia despontava. Juntaram-se aos de Lisboa. 200 mil desceram a Avenida da Liberdade. Irmanados na mesma luta.
Os pescadores reclamam e lutam. Os camionistas e transportadores reclamam e lutam. Os agricultores reclamam e lutam.
Quando na última 'coluna' que assinei (BA 683 - 21.Fev.2008) me confessei desiludido com o Povo do meu país por que, como então escrevi, «ignora, não protesta. Está dormente...», nunca me passou pela cabeça o quanto andava longe da realidade.
E este Junho veio provar(me) que o «O Povo (ainda) é que mais ordena».

João Jaleca
BRADOS 691 - 12 JUNHO 2008

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»» O Clube de Futebol de Estremoz, com grandes tradições no hóquei em patins, festejou, recentemente, o regresso à segunda divisão nacional, nesta modalidade, da qual tinha sido despromovido na época anterior, e onde merece estar por mérito próprio.
Os hoquistas, equipa técnica, dirigentes e todos os que integram a secção de hóquei em patins sénior estão de parabéns por este feito, que dignifica o clube, a cidade, e mantém viva em Estremoz a chama de uma modalidade que já deu muitas noites de alegria aos adeptos locais, principalmente nas duas temporadas em que o clube conquistou o campeonato nacional da segunda divisão e quando militou na divisão principal do hóquei patinado português, embora disputada em moldes diferentes do actual.
Do clube estremocense saíram alguns hoquistas para clubes da primeira divisão, entre eles, José António, que actuava na CUF, do Barreiro, que foi internacional “A” e campeão do mundo. Entretanto, as escolas do clube continuam a formar futuros valores para o hóquei patinado.
Com o lema “Sorrindo às Dificuldades”, o C.F. Estremoz continua a lutar, através da acção dos seus dirigentes, como sempre aconteceu ao longo do seu historial, para obter os meios financeiros necessários para manter as actividades desportivas. Mas, é de realçar o exemplo dos atletas do clube que praticam hóquei em patins e futebol apenas pelo amor à camisola, o que vai sendo coisa rara nos tempos que correm no desporto português.
Por esta razão, a equipa de futebol, que ao invés da formação de hóquei em patins desceu à 1ª Divisão Distrital, tendo ficado em último lugar na Divisão de Honra da Associação de Futebol de Évora, registando apenas uma vitória, merece também uma palavra de reconhecimento e de conforto.
Numa altura em que no processo “Apito Final” foi determinada a mais importante decisão disciplinar de sempre, contra a corrupção no futebol português, com castigos a três clubes, dirigentes e árbitros, este exemplo do C.F. Estremoz, que “joga” na “Liga dos Últimos”, mas onde se pratica o futebol apenas pelo amor à camisola, deve ser visto como um “oásis” no “deserto de podridão” que mancha o futebol nacional.
Clubes pobres como o C.F. Estremoz que vivem de sonhos, de vitórias e decepções, do qual me orgulho de ter envergado a camisola como futebolista, devem merecer a simpatia de todos nós.

Teodósio Caeiro

BRADOS 690 - 25 MAIO 2008

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»» Passando há dias em frente da antiga estação de camionagem da Rodoviária Nacional, dois pensamentos contraditórios me assaltaram.
Por um lado, e com as obras quase prontas, fiquei satisfeito por se ter encontrado uma finalidade para aquele edifício situado na zona nobre da cidade. Inicialmente adquirido pela autarquia – compra com a qual concordei, pois, ao menos, ficámos protegidos de utilizações menos dignas do edifício – e destinado ao mercado coberto, transformou-se, agora, na Casa de Estremoz, infraestrutura a que desejo o maior êxito e contra a qual nada tenho a objectar.
Lamento é que ainda não tenha sido possível construir o terminal rodoviário. Quem necessita de usar os autocarros continua sem as mínimas condições, constituindo um péssimo cartão de visita para aqueles que nos procuram e nem uma casa de banho encontram (a Refer fez obras de melhoramentos no edifício da estação da CP, mas as portas das casas de banho foram higienicamente fechadas com tijolo).
Por outro lado, ao olhar para a futura Casa de Estremoz, também não consegui evitar sentir um misto de nostalgia e tristeza.
Foi ali, nos altos da “Estação da Setubalense” que vivi quase toda a minha vida e onde ainda vivem os meus pais.
Há 40 anos (por volta desse Maio de 68 cuja herança utópica ainda reivindico), como tudo era diferente e, não, não quero dizer que as coisas eram melhores que hoje… até eram piores… eu é que era novo.
A “Setubalense” tinha motoristas, cobradores, despachantes, mecânicos, lubrificadores… cá fora, principalmente depois das aulas, era um mar de gente. No passeio em frente uma barraca dos gelados Rajá. Ao lado, o “Barrigana” a vender todo o tipo de coisas, o “Algarvio” e o Dário a carregar malas… Fui criado a ouvir o relógio da torre, a sirene dos bombeiros e o altifalante a debitar “atenção senhores passageiros para Arcos, Borba, Vila Viçosa… o autocarro encontra-se nas traseiras da estação”.
Ao lado da estação estava a “Casa Verde” com o respectivo Zeca e os seus suspensórios, a Chapelaria Lopes, o Tabaquinho (uma pessoa espectacular), a estalagem, o eterno café do Ramalho e o Fanfa ferrador.
Dos sábados tenho a ideia do movimento de uma grande cidade e recordo o Rossio cheio de carros de mulas; Rossio que se enchia para as missas campais com aqueles que eram enviados para a guerra colonial.
Pertencia ao “grupo” da Rua dos Telheiros e divertíamo-nos a jogar uma variante pobrezinha de hóquei em campo, futebol com as balizas nas sarjetas (as bolas eram as laranjas que ninguém colhia) e aos ciclistas com recortes do jornal. Nos períodos em que estava vago, invadíamos, com a cumplicidade do cabo e do soldado, o quartel dos Telheiros. Conhecíamos os polícias pelo nome e estávamos convictos que a sua função era impedir-nos de jogar à bola e confiscar a mesma.
E éramos muitos: Faia, Botas, Júlio Mantas, Traguedas, Luz, Tobias, Inácio, Zé Alberto, Amândio, Zé Maria, Arquista, Zeca da Casa Verde (filho)… Muitos e muitos mais na escola e nas outras zonas da cidade que frequentávamos num ambiente pacífico, mas de alguma rivalidade.
A nostalgia deve-se aos tempos que já não voltam; a tristeza é porque éramos muitos gaiatos e gaiatas nas ruas, nas escolas, na cidade, no concelho. Tristeza porque não conseguimos parar o envelhecimento da nossa população, tristeza porque os jovens são cada vez menos e o desenvolvimento e sustentabilidade do concelho está dependente deles.
Mas, enfim, como diz o Gadanha, 'corre o tempo velozmente' e cá estamos nós, velhos, num mundo em que se atesta o depósito do carro com comida e os silos servem para colocar antenas, em que para criar emprego se facilitam os despedimentos, em que aos 50 anos somos novos para a reforma e velhos para trabalhar (velhos e caros… um jovem a recibo verde é muito mais em conta: não há férias, subsídio de Natal ou protecção social), em que o Santana Lopes apontado como persistente insiste em candidatar-se a mais um cargo, sem nunca ter levado nada até ao fim, em que os bancos choram por terem menos uns tostões de lucro, em que metade do preço da gasolina (e do gasóleo) é fruto da especulação… Um mundo perigoso, cheio de insegurança e incerteza.
O que vale é que o fim está próximo. Pelo menos a acreditar na literatura que uma velhinha sinistra e uma trintona com olhos de Madame Bovary me entregaram.
O que vale é como quem diz!!! O fim é quando e quem votou a favor do fim e não da continuação? Quem se vai salvar? Todos? Os justos? Os amigos? É preciso pagar alguma coisa? Não há um referendo? Nem mesmo um pequeno debate? As coisas agora são assim?
Deus, mas afinal és ou não um intelectual de esquerda?

João Oliveira Vieira

BRADOS 689 - 19 MAIO 2008

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»» Foram antagónicas as opiniões que recebemos por parte da comunidade estremocense em relação à peça que o Brados publicou no último número com o título “Ministério Público acusa Arvana”, que dava conta de um crime de morte alegadamente cometido por um empresário da cidade.
Por um lado, a aprovação dos que entenderam a edição da notícia como matéria de interesse público, volvidos que estão quatro anos da data em que a Polícia Judiciária pegou no caso e em que pouco ou nada se soube do desenrolar das investigações.
Do outro, a crítica da prática de um jornalismo sensacionalista que simbolicamente aqui vou resumir num comentário que me foi transmitido (da nossa parte, sem qualquer menosprezo para o nosso colega lisboeta): “Aquilo era mais uma coisa à Correio da Manhã”.
De maneira nenhuma é intenção deste texto o julgamento dos defensores de uma ou outra posição. Era lógico, até pela sensibilidade do caso, que as reacções iriam transcender uma leitura única. E, afinal, a democracia começa nas ideias e celebra as diferenças.
Sem querer adoptar uma postura defensiva, porque a nossa consciência está e continuará perfeitamente tranquila, penso que é importante enquadrar este caso à luz do papel da comunicação social na sociedade local.
Julgo que é inútil discutir o interesse da notícia. O simples facto de a edição completa do Brados ter esgotado poucas horas depois de chegar às bancas serve como comprovativo do interesse público que suscitou.
Por outro lado, é dever de um órgão de comunicação social informar, e uma vez na posse da informação, não podíamos simplesmente escamoteá-la.
Em relação ao teor do texto, basta pegar no primeiro parágrafo do Código Deontológico dos Jornalistas Portugueses para nos sentirmos perfeitamente serenos: “O jornalista deve relatar os factos com rigor e exactidão e interpretá-los com honestidade. Os factos devem ser comprovados, ouvindo as partes com interesses atendíveis no caso. A distinção entre notícia e opinião deve ficar bem clara aos olhos do público”. Um outro parágrafo de particular relevância foi igualmente respeitado na totalidade pelo autor da peça: “O jornalista deve salvaguardar a presunção da inocência dos arguidos até a sentença transitar em julgado”.
Penso que é claro que, em nenhuma parte do texto, um ou outro conceito foram vilipendiados.
É certo que o critério informativo do Brados poucas vezes se tem aproximado, nomeadamente com este destaque, de matérias afins. Mas tal não pode significar que nos demarquemos da nossa responsabilidade informativa, nem que fechemos os olhos a determinadas realidades apenas porque podem ser interpretadas como indesejáveis ou de um “estilo menor”.
Convém não esquecer que a susceptibilidade que qualquer acontecimento (notícia) pode provocar deve estar necessariamente associada à sua origem, nunca ao seu relato...
O mau exemplo de que alguns nos acusaram – que fere as susceptibilidades de qualquer jornalista consciencioso! –, esse pudemos vê-lo nas páginas de um outro diário nacional – por sinal recordista de vendas, e de processos judiciais... –, que num título particularmente afirmativo sintetizava o evento fatal sem que as partes fossem presumidas ou os factos alegados: “Empresário mata amante da mulher”.
Ao contrário de alguns órgãos sensacionalistas, nós aqui, no Brados, não inventamos certezas.

Pedro M. Pereira

BRADOS 686 - 03 ABRIL 2008

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»» No final de uma audiência entre as confederações patronais e o primeiro-ministro, José Sócrates, que teve lugar no passado dia 10 de Março, Francisco Van Zeller, presidente da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP), afirmou aos jornalistas que "o bom era que o Governo pagasse o que deve às empresas, que poderiam resolver algumas dificuldades que enfrentam, nomeadamente até pagar salários em atraso ou aumentar os salários dos seus trabalhadores".
Na mesma intervenção, Francisco Van Zeller lembrou ainda que a dívida do Estado a empresas ascende a 3.000 milhões de euros, ou seja muito dinheiro mesmo, cujo pagamento o Estado vem adiando.
Sendo o tecido empresarial português maioritariamente constituído por micro e pequenas empresas, qualquer atraso no pagamento dos seus serviços pode muitas vezes pôr em causa a continuidade da mesma, gerar atrasos no pagamento de salários, a fornecedores ou na realização de investimentos, gerando-se assim um ciclo que afecta toda a economia portuguesa.
Numa altura em que a economia portuguesa atravessa um mau momento, em que muitos clientes privados levam também eles meses a pagar (ou não chegando mesmo a pagar) torna-se ainda mais vital que o Estado seja cumpridor para que a empresas possam subsistir.
Só mesmo o facto de muitos clientes privados serem tão ou mais faltosos que o Estado leva a que as micro e pequenas empresas nacionais continuem a prestar serviços e vender mercadorias ao Estado. É que, embora este leve meses ou anos a pagar, sabem que se aguentarem a empresa até lá, acabarão por receber o que têm a haver.
Como é que, quando se pede às empresas portuguesas que invistam, que se modernizem e, além de uma carga fiscal mais pesada que muitos do países da União Europeia, muitos dos seus clientes levam meses a pagar, as empresas arranjam dinheiro para se modernizarem e se tornarem mais competitivas?
Como se diz, "anda meio mundo a enganar outro meio", e, para piorar a situação, em Portugal, é mais fácil conseguir crédito junto da banca para se comprar um automóvel do que para constituir ou fazer investimentos numa empresa.
Com todas estas circunstâncias, é natural que todos os dias os telejornais mostrem empresas a encerrar por todo o país, levando diariamente dezenas ou centenas de trabalhadores a aumentar os números do desemprego.
Resta saber quando é que, em Portugal, os clientes começam a pagar a tempo e horas, acabando com esta situação que mina toda a economia, e por onde passa vai desgraçando empresa após empresa.

Hugo Francisco

BRADOS 685 - 20 MARÇO 2008

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»» O espaço de reflexão que me coube hoje assinar tem o sentido de uma homenagem. Homenagem de que são merecedores, a meu ver, os Bombeiros Voluntários de Estremoz, que este ano celebram as “Bodas de Diamante”. (O programa das comemorações será apresentado dia 8, sábado).
É certo que no decurso dos seus 75 anos de vida, a acção dos “soldados da Paz” estremocenses já terá sido lembrada em variados momentos, mas julgo ser chegada a altura de os poderes públicos locais e a população de Estremoz mostrarem da forma mais abrangente, clara, e inequívoca o reconhecimento de que são merecedores aqueles que ao longo do tempo, por uma opção livre e pessoal, por um imperativo de consciência, a qualquer hora do dia ou da noite têm deixado o conforto do lar, a companhia da família, o convívio com os amigos, a actividade profissional, para acudir a um sinistro, salvar bens e vidas alheias, muitas vezes com risco da sua própria vida, sem nada exigir, sem nada pedir em troca.
Mas também aqueles que, não sendo membros do Corpo Activo, têm dado o seu melhor para que a instituição sobreviva, cresça, prospere e se adapte às conjunturas económicas, políticas e sociais, que o longo prazo determina. Aqueles que têm sabido “conduzir o barco” não só em tempos de bonança mas, e principalmente, nos períodos de vendaval. Aqueles que nas épocas de carência financeira, de porta em porta, “mendigavam” os centavos para um equipamento, uma viatura, o fardamento... Os sucessivos membros dos órgãos sociais, desde a fundação aos dias de hoje e os colaboradores das iniciativas para angariar fundos. Também eles são dignos e merecedores de reconhecimento público.
É por esta disponibilidade para com o seu semelhante, por este espírito de abnegação de solidariedade de que têm dado provas que entendo ser da mais elementar justiça que a comunidade se associe às celebrações do 75º aniversário da fundação da Associação dos Bombeiros Voluntários de Estremoz e que a autarquia lhe preste o devido tributo, nem que seja, simplesmente, atribuindo o seu nome a uma artéria ou praça da cidade.
Os Bombeiros merecem.
Além disso, numa época em que tanto se fala de crise do voluntariado, o gesto poderá ser uma forma de mostrar aos jovens que ajudar o próximo, além de se ajudar a si próprio, é um acto socialmente reconhecido e os motive a inscreverem-se como bombeiros voluntários.
Aqui fica a sugestão.

Inácio Grazina

BRADOS 684 - 06 MARÇO 2008

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»» O novo período de fundos comunitários vai ser determinante para o desenvolvimento do Alentejo e as instituições da região, sobretudo as autarquias, e também as empresas, têm até 2013 uma oportunidade, talvez a última em termos de apoios financeiros provenientes da União Europeia, que não podem desperdiçar, se querem ter ambição e não perder o comboio do progresso.
Integrado no Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN) para 2007/2013, o Programa Operacional do Alentejo (POA) envolve 58 concelhos (47 alentejanos e 11 da Lezíria do Ribatejo) e prevê um investimento de quase 1.500 milhões de euros, dos quais 869 milhões terão financiamento comunitário.
Um terço dos investimentos previstos no POA no novo quadro de fundos comunitários, vai ser canalizado para as pequenas e médias empresas e para acções integradas no eixo “Competitividade, Inovação e Conhecimento”.
Existem, por isso, condições para se poder inverter a tendência de desertificação e a fraca competitividade da região, podendo as pequenas e médias empresas alentejanas candidatar-se aos sistemas de incentivos que englobam a qualificação e internacionalização, a inovação e a investigação e desenvolvimento tecnológico.
O “Desenvolvimento Urbano”, destinado a projectos de política das cidades e de criação de redes urbanas para a competitividade e inovação, constitui outro eixo do POA, cabendo sobretudo aos municípios organizarem-se para que através do seu funcionamento em rede e de cooperação interurbana ganhem escala em torno de uma estratégica comum.
Os restantes eixos do POA destinam-se, sobretudo, a apoios às áreas da saúde, património cultural e requalificação da rede escolar do primeiro ciclo do ensino básico e da educação pré-escolar, acções de valorização e qualificação ambiental, valorização do espaço rural, modernização administrativa, proximidade ao cidadão, e assistência técnica.
O novo POA vai permitir que o Alentejo tenha uma maior abertura ao exterior, mercê também de grandes projectos regionais como o TGV, aeroporto de Beja, Alqueva, complexo industrial e portuário de Sines, a plataforma logística de Elvas e os “resorts” previstos para o litoral alentejano.
Ainda num quadro positivo, pode dizer-se que por vezes os ventos sopram a favor da região alentejana, como aconteceu com a decisão preliminar de escolher Alcochete como localização do novo aeroporto internacional de Lisboa e com o anúncio recente dos vários projectos turísticos a implementar no distrito de Évora, principalmente para a zona de Alqueva, que vão permitir criar 3.754 postos de trabalho.
O Alentejo deve continuar a ser um destino turístico, mas não pode servir apenas para zona de passeio aos fins-de-semana, e os responsáveis pelas instituições da região, principalmente as autarquias, têm de mostrar capacidade reivindicativa para que projectos de outros sectores aqui sejam desenvolvidos, no sentido de criar emprego e principalmente fixar na região os jovens que aqui vivem, ou seja para que o Alentejo tenha gente todos os dias.
A meu ver, o Alentejo deve ser visto num todo no sentido de desenvolvimento harmonioso da região, mas também reconheço que os projectos estruturantes em curso ou a desenvolver,
não abrangem directamente o concelho de Estremoz, assim como o Norte Alentejano, ficando, por isso, estas zonas impedidas de tirar deles maiores dividendos.
Por falar no concelho de Estremoz, aproveito para lembrar que a construção da barragem de Veiros, uma obra há muita prometida, deveria iniciar-se no primeiro semestre deste ano, conforme declarou um governante na FIAPE de 2007, mas alguém tem esta confirmação?

Teodósio Caeiro
BRADOS 682 - 07 FEVEREIRO 2008

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»» A opereta parece estar na moda em Portugal. Apesar de DAS MARCHEN, o conto de Emmanuel Nunes, ter recebido a nobilíssima classificação de ópera, o evento “piloto” municipalmente publicitado, poderá não conhecer a afluência voluntária, por mais grátis que seja, que o centenário Bernardim Ribeiro merece. E, a razão é simples: é que os intérpretes nem sequer vão estar no nobre espaço estremocense que, por sinal, até está preparadíssimo para grandes elencos e orquestras de carne e osso. A transmissão em directo da obra, a partir do São Carlos, a ser feita pela televisão do estado para 14 teatros do país, cheira-me a país de opereta. Esta “vontade do Ministério da Cultura” em perpetuar e aproveitar o mote laranja de “abertura à sociedade civil” da RTP, aconchegada à PT Multimédia, como justificação para levar o meio “operático” a novos públicos, é abaixo de opereta! É uma operação falsa, fria, extemporânea e demasiado cara para o bolso dos contribuintes – é que quem já assistiu a três óperas ao vivo no velhinho Bernardim, que é velhinho mas é dos poucos que dispõe de fosso de orquestra, não papa, facilmente, estes grupos, das novas tecnologias da informação. A meu ver, é dramático e não só no sentido teatral, da coisa.
Mas mais dramático e, de tão escandaloso que é, que quase parece uma opereta, é a falta de vergonha que um ministro demonstra em não abandonar imediatamente o palco na sequência da morte de dois bebés que, directa ou indirectamente, estão ligadas ao verdadeiro enredo que tem sido a política de reestruturação do Serviço Nacional de Saúde. Um governante que não explica antes de pôr em prática, que cria insegurança nas populações pelas decisões que toma e se desdobra em explicações depois de acontecidas as desgraças, faz lembrar um barbeiro sevilhano, de pouca confiança, com uma navalha na mão.
E já que estou numa de “universo operático”, como exalta a nota (municipal) de imprensa, não posso deixar de referenciar um dos mais fracos conhecidos autores da opereta à portuguesa – Menezes. É que o iluminado Luís Filipe tem tentado dar cartas e lições através da obra de sua autoria intitulada “Como Convencer o Povinho de Que Vou a Primeiro-Ministro”. Não tem tido nenhum sucesso, coitado. O homem chega a rasar a mediocridade. Não tem qualquer audiência, mas convenceu-se de que ia colocar um actor da companhia no maior banco privado nacional. Tudo não passou de um solo desafinado que resultou nuns fracos 2% de aplausos dos verdadeiros actores do BCP para Miguel Cadilhe. Depois, não contente com a patética prestação e fazendo ouvidos de mercador às vaias do público, resolveu bisar ao alvitrar sobre a distribuição das sensibilidades políticas dos vários comentadores de TV. Com prestações destas na cena operática da política nacional não vai chegar a PM de certeza. Mas, num futuro próximo, ainda vai elencar, garantidamente, uma qualquer direcção de programas da RTP. A primeira opereta a transmitir vai ser em directo, a partir de Gaia, ou talvez não, para todo o norte do País. Ah, se tão grande empresa tecnológica subir ao satélite, deixo aqui uma sugestão à ministra Pires de Lima: Façam lá a coisa através da RTP Internacional e encham os teatros de todo o mundo para que diáspora e os PALOP, se desliguem do canal MEZZO e possam desfrutar do “grande esforço de abertura da ópera contemporânea” a partir de terras lusas.

Bruno Calado Silva
BRADOS 681 -24 JANEIRO 2008

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